Pergunta honesta: quando você era mais jovem, o que o futuro ia ser?
A pergunta parece simples, mas esconde um enigma maior. Será que imaginamos o futuro ou apenas projetamos nossos desejos com data de validade? O amanhã que sonhamos é uma profecia ou um espelho? E quem responde por ele: a ciência, o desejo ou o medo?
Quando éramos crianças, a resposta vinha pronta: os carros voariam, todo mundo teria um robô em casa, e nessa altura estaríamos indo e voltando de outros planetas como quem pega uma estrada. O futuro era um lugar. Tinha data, tinha cor, tinha trilha sonora. Acontece que "nessa altura" é agora e o amanhã prometido chegou. Só que de incógnito.
A conexão: um amanhã que chegou de incógnito
Eu tinha esse tipo de relação com o hoverboard de De Volta para o Futuro II: nem skate eu andava direito, mas a prancha me tirava o sono. O que me fascinava não era que ela flutuasse é que flutuava com regras. Não subia muito. Mantinha velocidade constante. E sobre a água simplesmente falhava: "essas pranchas não funcionam na água", avisa o garoto da gangue. Era um objeto impossível que se comportava como um objeto real. Demorei anos para entender o que o roteiro já sabia: não é o impossível que convence é o impossível com limitações.
O futuro prometido chegou exatamente assim: cumpriu as promessas na direção errada e mesmo assim acertou o alvo. O carro voador existe você o convoca por aplicativo e ele chega com placa e cheiro de ar-condicionado. O videofone existe e a gente passou uma pandemia inteira descobrindo que preferia a loja. O robô doméstico existe na forma de um disco que aspira o chão enquanto você trabalha. Não recebemos os objetos mágicos; recebemos os resultados deles, sem a aura. O futuro raramente entrega a coisa dos sonhos entrega a dissolução do problema que a coisa resolveria.
Agostinho, no século IV, já tinha formulado a armadilha. Nas Confissões, ele propõe que existem três presentes: "o presente das coisas passadas é a memória; o presente das coisas presentes é a visão; o presente das coisas futuras é a expectação". O futuro, portanto, nunca chega: quando chega, vira presente. A única moradia que ele tem é a imaginação. E toda expectação revela mais sobre quem espera do que sobre o que é esperado. O futuro que sonhamos é um retrato do presente que temos com melhor iluminação.
O futuro dos objetos contra o futuro dos sistemas
Comparar a ficção do passado com a realidade do presente é perceber que erramos a categoria. O futuro antigo era um catálogo de objetos: pranchas flutuantes, carros com bolhas de vidro, empregadas de metal com avental. O futuro real foi feito de sistemas invisíveis redes, algoritmos, serviços que não aparecem em nenhum pôster e mudaram tudo.
Os Jetsons, estreados em 1962 e ambientados em 2062, desenharam uma tecnologia que muda tudo, exceto os problemas: George continua com o chefe insuportável, Jane continua comprando demais pelo videofone, Judy continua aos quinze anos. O desenho entendeu o que levamos décadas para aprender: a inovação redesenha o cenário, não o personagem. Já 2001: Uma Odisseia no Espaço previu bases na Lua e companhias aéreas interestelares mas não previu a internet. A ficção enxerga o que se move; é cega ao que conecta.
E há a virada de tom. A distopia sempre existiu Metrópolis é de 1927, Admirável Mundo Novo de 1932, 1984 de 1949. Mas, nesses tempos, ela era a exceção que assustava por contraste: o otimismo era o tom padrão da imaginação, de "There's a Great Big Beautiful Tomorrow", da Disney, à Era de Ouro da ficção científica. Hoje, o mapa se inverteu: de Jogos Vorazes a Black Mirror, a distopia é o ponto de partida, e o sintoma mais revelador é este para escrever um futuro esperançoso agora, é preciso inventar um subgênero com nome de manifesto: hopepunk, solarpunk. O pessimismo virou tom; o otimismo virou posição que se declara.
O que os futurólogos erraram e por quê
Existe uma lei que explica quase tudo isso em uma frase. Roy Amara, do Institute for the Future, a formulou assim: tendemos a superestimar o efeito de uma tecnologia no curto prazo e subestimar o seu efeito no longo prazo. Esperávamos hoverboards em 2015 e mal percebemos a internet chegando embora ela tenha transformado a civilização mais do que mil pranchas flutuantes juntas.
Alvin Toffler, em O Choque do Futuro (1970), previu que o problema do amanhã seria "mudança demais em tempo de menos". Acertou o diagnóstico e errou o sintoma: o choque não viria de foguetes, mas da sobrecarga de informação. Buckminster Fuller calculou que o conhecimento humano dobrava a cada século até 1900, a cada vinte e cinco anos depois da Segunda Guerra e em ritmo de meses, hoje. Quando o mundo dobra mais depressa do que o ciclo cultural de um filme, prever virou um jogo perdido. Os futurólogos extrapolavam o visível máquinas que se movem e eram cegos ao invisível: máquinas que pensam e conectam. O futuro estava nos lugares errados. Não na garagem: na rede.
E o hoverboard real? Existe. Plataformas de levitação magnética desenvolvidas pela Lexus e pela Hendo flutuam de verdade mas somente sobre pistas de metal especiais, porque a física também cobra suas regras. É a terceira lei de Clarke "toda tecnologia suficientemente avançada é indistinguível de mágica" lida ao contrário: a mágica existia, só que com requisitos que o roteiro não mencionou. Os escritores inventam as regras; a natureza também as tem, apenas não paga royalties. "Cadê meu carro voador?" talvez seja a pergunta mal formulada do nosso tempo.
O filósofo da esperança e o filósofo do medo
Duas obras filosóficas do século XX funcionam como os polos da nossa relação com o amanhã e explicam a virada de tom melhor do que qualquer lista de filmes.
Ernst Bloch, em O Princípio Esperança, propôs algo radical: sonhar com o futuro não é fuga, é estrutura. Para ele, os "sonhos diurnos" as fantasias despertas sobre o que poderia ser são a bússola da história: toda utopia é um desejo educado, um ensaio daquilo que ainda não existe. Os Jetsons eram exatamente isso: o sonho diurno coletivo de uma geração que precisava acreditar que a máquina libertaria. Bloch diria que retirar essa imaginação do futuro não é realismo é empobrecimento.
Hans Jonas, em O Princípio Responsabilidade, respondeu de outro ponto, com um argumento que envelheceu assustadoramente bem: a tecnologia deu à humanidade um poder cujas consequências viajam no tempo e no espaço mais depressa do que a nossa ética feita, como ele dizia, para o vizinho, para o gesto, para o aqui e agora. Daí sua proposta da heurística do medo: quando o risco é existencial, imaginar a catástrofe não é pessimismo, é prudência metodológica. Lido assim, o deslocamento de Black Mirror não é moda: é Jonas popularizado. O medo migrou da guerra nuclear para a intimidade da televisão do Grande Irmão para o aparelho que nós mesmos carregamos e não conseguimos largar.
Mas Bloch advertiria o reverso: uma civilização que só ensaia o desastre no espelho acaba construindo o que ensaia. Imaginação é ensaio, e o que ensaiamos repetidamente realizamos eventualmente. A síntese talvez seja esta: esperança com método, medo com proporção sonhar como quem constrói, temer como quem calcula.
As ideias absurdas que abraçamos de olhos abertos
A história do futuro tem um capítulo que os otimistas preferem esquecer: o das ideias que pareciam benefícios absolutos e que abraçamos com entusiasmo até se revelarem absurdas. O padrão se repete sem exceção: o ganho é imediato e visível, o dano é tardio e diluído. Por isso nenhuma era reconhece o próprio absurdo: no presente, só existe otimismo com poucos dados.
No início do século XX, o rádio era a promessa da saúde: havia pasta de dentes de rádio (Doramad), água radioativa em frascos (Radithor) e spas onde se respirava emanção. O industrial Eben Byers tomou mais de mil quatrocentos frascos de Radithor a mandíbula se desfez antes de ele perceber o erro. O amianto era o "mineral milagroso", tão seguro que a neve cintilante usada nas filmagens de O Mágico de Oz, em 1939, era feita dele. O DDT era tão benigno que borrifavam crianças em piqueniques, com direito a jingle: "DDT is good for me". A Ford desenhou o Nucleon, em 1958, um carro de passeio com reator nuclear no porta-malas. O correio-foguete entregou cartas de verdade o primeiro voo postal a jato foi em 1931, na Áustria, e em 1959 um míssil americano Regulus entregou três mil cartas em vinte e dois minutos. E o controle do tempo era uma meta civilizacional: depois de semear nuvens em 1946, os militares americanos prolongaram monções no Vietnã como arma de guerra a Operação Popeye, que levou o mundo a assinar, em 1978, o tratado que proíbe guerras climáticas. Até o jantar em uma pílula parecia o destino lógico da alimentação.
Nenhuma dessas ideias parecia absurda no seu tempo; todas pareciam o futuro. E é aqui que mora a pergunta incômoda, a que justifica este artigo inteiro: qual é a nossa pasta de dentes de rádio? A inteligência artificial em tudo e em todos? A edição genética transmitida aos filhos? A localização permanente? Os microplásticos no sangue? Não sei e é exatamente por não sabermos que a pergunta importa. Daqui a cinquenta anos, alguém escreverá este mesmo artigo, e nós seremos os ingênuos dele.
O espelho
Agostinho diria que a pergunta com que comecei sempre terá a mesma estrutura: expectatio. Nós nunca encontramos o futuro nós só encontramos as nossas expectativas dele, já vencidas, empilhadas como fotos de formatura. E cada expectação é um retrato de quem a produziu. A Era do Espaço sonhava com objetos porque tinha foguetes; nós sonhamos com distopias porque temos telas. O futuro que você imagina não é o amanhã. É o seu hoje falando com sotaque de amanhã.
Então, de novo: como você imagina daqui a vinte anos? E a pergunta que importa de verdade: o que a sua resposta revela sobre o seu hoje?
Não herdamos o futuro dos nossos avós pagamos a fatura dele, em prestações. A melhor herança que podemos deixar ao próximo amanhã é fazer promessas mais honestas, e toda promessa honesta deveria vir com a única coisa que torna qualquer tecnologia crível: regras claras. Como um bom hoverboard: não precisa voar alto precisa saber onde não flutua.

